Existem pessoas felizes e pessoas infelizes, e todas elas se questionam. Umas bebem champagne e outras água da torneira, e se fazem as mesmas indagações. Se existe uma coisa que nos unifica são as dúvidas que trazemos dentro. São pequenas angústias que se manifestam silenciosamente, angústias que não gritam, ou gritam na forma de úlceras, insônias e depressões. Angústias diante das mentiras consensuais.
O que são mentiras consensuais? São aquelas que todo mundo topou passar adiante como se fosse verdade. Aquelas que ouvimos de nossos pais, eles de nossos avós, e que automaticamente passaremos para nossos filhos, colaborando assim para o bom andamento do mundo, para uma sanidade comum. O amor, o sentimento mais nobre e vulcânico que há, tornou-se a maior vítima deste consenso.
Mentiras consensuais: o amor não acaba, não se pode amar duas pessoas ao mesmo tempo, quem ama quer filhos, quem ama não sente desejo por outro, amor de uma noite só não é amor, o amor requer vida partilhada, amor entre pessoas do mesmo sexo é antinatural.
Tudo mentira. O amor, como todo sentimento, é livre. É arredio a frases feitas, debocha das regras que tentam lhe impor. Esta meia dúzia de coordenadas instituídas como verdades fazem com que muitas pessoas achem que estejam amando errado, quando estão simplesmente amando. Amando pessoas mais jovens ou mais velhas ou do mesmo sexo ou amando pouco ou amando com exagero, amando um homem casado ou uma mulher bandida ou platonicamente, amando e ganhando, todos eles, a alcunha de insanos, como se pudéssemos controlar o sentimento. O amor é dono dele mesmo, somos apenas seu hospedeiro. Sobem e descem de ônibus milhares de passageiros que parecem iguais entre si, porém há entre eles os que não gostam de crianças, os que nunca rezaram, os que estão muito satisfeitos com suas rugas e gorduras, os que não gostam de festas e viagens, os que odeiam futebol, os que viverão até os cem anos fumando, os que conversam telepaticamente com extraterrestres, os ermitões, enfim, os desajustados de um mundo que só oferece um molde.
Todos nós, que estamos quites com as verdades concordadas, guardamos, lá no fundo, algo que nos perturba, que nos convida para o exílio. É a parte de nós que aceita a existência das mentiras consensuais, entende que é melhor viver de acordo com o estabelecido, mas que, no íntimo, não consegue dizer amém.
Quem sou eu
- Vanne
- Eu tenho uma ideia formada sobre quase tudo. Mas me permito mudá-la. Afinal, como dizia Raul, "eu prefiro ser essa metamorfose âmbulante ♪". Tenho muitos sonhos. Eu busco, da minha maneira, ser um pouco melhor a cada dia. Valorizo demais a minha família. Tenho os MELHORES amigos do mundo. Gosto de desafios, de riscos. É como se eu tivesse necessidade de sempre provar pra mim mesma o quão forte eu posso ser. Gosto muito das palavras, mas valorizo muito mais as ações. Música. MUITA música. Adoro dançar. Acredito em Deus. Sou uma pessoa abençoada. Sou à favor da liberdade de expressão. AMO cinema, teatro, coral, concertos, fotografias e afins. ARTE. Sou apaixonada pelo Jornalismo. A não-obrigatoriedade do diploma NÃO me assusta. Se você for mesmo BOM, sempre terá vez. Sou persistente. Inteligência me fascina. Gosto de gente que sabe o que quer. Gosto de ser surpreendida. Busco sempre o melhor nas pessoas. Adoro escrever. Leio muito. Confio em mim. Quero conhecer o MUNDO. Acho que o amor é um sentimento revolucionário. Não gosto de promessas. Não sei se o pra sempre existe. Por isso faço o possível pra que todos os momentos sejam bons e valham uma boa lembrança.
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
sábado, 8 de janeiro de 2011
Conquistar o que importa
Quando chega essa época de início de ano, é inevitável olharmos para trás e fazermos um “balanço” de tudo o que aconteceu até hoje em nossa vida.
Quando você se percebe adulto, é normal isso acontecer. É como se houvesse a obrigação de que a cada ano atingíssemos uma fase de crescimento, principalmente no campo profissional. Aí vem aquela frase bem clichê na cabeça: Eu tenho quase vinte anos (caramba!) e o que eu conquistei até hoje?
O problema é que a maioria das pessoas se preocupa em responder essa pergunta com coisas palpáveis e extremamente visíveis. Comprei um carro, uma casa, viajei pro exterior, aumentei os zeros da minha conta bancária... Coisas assim sabe. Ótimo, são conquistas maravilhosas e que sem dúvida exigem esforço e capacidade.
Mas existe muita coisa, além disso, que pode ser conquistada num ano inteiro.
Eu, por exemplo, e posso dizer que “infelizmente”, não conquistei nenhuma dessas coisas citadas acima, mas sem dúvida alguma me sinto uma pessoa muito mais forte em relação ao que eu era há um ano.
Conquistei amigos, que eu sei que são de verdade, fortifiquei amizades que já são eternas (com todo o significado que essa palavra pode ter), conquistei um espaço no meu antigo trabalho que é meu e que eu sei que estará aí pra quando eu quiser voltar (e vocês nem imaginam a sensação de proteção que isso proporciona)... Tornei-me mais independente, mais sensata, menos criança, mais mulher, menos preocupada, mais responsável, adquiri muito conhecimento, chorei, sorri, dancei, escrevi, estudei (bastante!), arrumei um trabalho (na minha área), percebi o quanto tenho sorte por estar sempre rodeada de pessoas boas...
E quando eu achei que estava de bom tamanho, que o ano já tinha sido bem proveitoso, pude ver o quanto é gratificante fazer as pessoas felizes... Ainda mais quando essas se tratam de crianças.
E é assim que a gente percebe quando um ano foi realmente bom. Quando você pode olhar pra trás e ver que sim, você cresceu e conquistou muitas coisas, mesmo que não sejam palpáveis ou visíveis. E isso, meus amigos, ninguém tem o poder de tirar da gente.

RECEITA DE ANO NOVO
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Carlos Drummond de Andrade
Quando você se percebe adulto, é normal isso acontecer. É como se houvesse a obrigação de que a cada ano atingíssemos uma fase de crescimento, principalmente no campo profissional. Aí vem aquela frase bem clichê na cabeça: Eu tenho quase vinte anos (caramba!) e o que eu conquistei até hoje?
O problema é que a maioria das pessoas se preocupa em responder essa pergunta com coisas palpáveis e extremamente visíveis. Comprei um carro, uma casa, viajei pro exterior, aumentei os zeros da minha conta bancária... Coisas assim sabe. Ótimo, são conquistas maravilhosas e que sem dúvida exigem esforço e capacidade.
Mas existe muita coisa, além disso, que pode ser conquistada num ano inteiro.
Eu, por exemplo, e posso dizer que “infelizmente”, não conquistei nenhuma dessas coisas citadas acima, mas sem dúvida alguma me sinto uma pessoa muito mais forte em relação ao que eu era há um ano.
Conquistei amigos, que eu sei que são de verdade, fortifiquei amizades que já são eternas (com todo o significado que essa palavra pode ter), conquistei um espaço no meu antigo trabalho que é meu e que eu sei que estará aí pra quando eu quiser voltar (e vocês nem imaginam a sensação de proteção que isso proporciona)... Tornei-me mais independente, mais sensata, menos criança, mais mulher, menos preocupada, mais responsável, adquiri muito conhecimento, chorei, sorri, dancei, escrevi, estudei (bastante!), arrumei um trabalho (na minha área), percebi o quanto tenho sorte por estar sempre rodeada de pessoas boas...
E quando eu achei que estava de bom tamanho, que o ano já tinha sido bem proveitoso, pude ver o quanto é gratificante fazer as pessoas felizes... Ainda mais quando essas se tratam de crianças.
E é assim que a gente percebe quando um ano foi realmente bom. Quando você pode olhar pra trás e ver que sim, você cresceu e conquistou muitas coisas, mesmo que não sejam palpáveis ou visíveis. E isso, meus amigos, ninguém tem o poder de tirar da gente.

RECEITA DE ANO NOVO
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Carlos Drummond de Andrade
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Nem por você, nem por ninguém, eu me desfaço dos meus planos...
4h27min. Domingo. Devido ao imenso calor, eu rolava na cama e não conseguia dormir.Desisti. Liguei o ventilador na velocidade máxima, bem no meu rosto e decidi esperar o sono chegar ou a minha cabeça começar a doer por causa daquele jato de vento que vinha sobre mim.
Ter insônia não é tão ruim, ainda mais quando o outro dia é livre de afazeres. Todas as vezes que isso acontece eu me permito imaginar. Fico viajando nos meus pensamentos. Construo altos planos, penso em algumas coisas que precisam ser mudadas, relembro momentos e pessoas (talvez essa seja a parte ruim)...e assim, sem perceber, o sono chega.
Era isso que eu fazia naquela noite, mas o vibrar do celular me troxe de volta ao mundo físico.
Era uma amiga, desesperada por que o namorado havia pedido um tempo. Ela chorava e dizia que nada mais tinha sentido, que ela não era nada sem ele...efim, todos aqueles lamentos que ao meu ver, apesar da dor que ela sentia, não tinham fundamento.
Fiz o possível para consolá-la e fazer com que ela se acalmasse. Depois de quase 40 minutos de conversa, desliguei o telefone, pousei a cabeça no travesseiro e comecei a pensar.
O que faz uma pessoa condicionar sua vida a outra assim, a ponto de nada mais ter sentido quando ela se afasta? Tudo bem, realmente é difícil quando você ama e perde a pessoa, mas, e o resto ? E os projetos profissionais, a vontade de conhecer lugares e pessoas, a vontade de crescer ? Será que o amor anula tudo isso ? Bom, se for assim, eu não quero amar.
Na verdade, o maior problema é que alguém nos fez acreditar que cada um de nós é a metade de uma laranja, e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade.
Mas isso não é verdade. Já nascemos inteiros e ninguém em nossa vida merece carregar nas costas a responsabilidade de completar o que nos falta: a gente cresce através da gente mesmo. Se tivermos uma boa companhia, só é mais agradável.
Fizeram a gente acreditar numa fórmula chamada “dois em um”, duas pessoas pensando igual, agindo igual...mas isso tem nome: anulação. Só sendo indivíduos com personalidade própria é que poderemos ter uma relação saudável.
Fizeram a gente acreditar que a única fórmula para ser feliz é encontrar outra pessoa que nos “complete”, mas ninguém falou que essas fórmulas nem sempre dão certo, frustram as pessoas, são alienantes...
Existem muitas outras alternativas...mas isso ninguém vai nos contar. Teremos que descobrir sozinhos.
“ E aí, quando você estiver muito apaixonado por você mesmo, vai poder ser muito feliz e se apaixonar por alguém.” (John Lennon)
Ter insônia não é tão ruim, ainda mais quando o outro dia é livre de afazeres. Todas as vezes que isso acontece eu me permito imaginar. Fico viajando nos meus pensamentos. Construo altos planos, penso em algumas coisas que precisam ser mudadas, relembro momentos e pessoas (talvez essa seja a parte ruim)...e assim, sem perceber, o sono chega.
Era isso que eu fazia naquela noite, mas o vibrar do celular me troxe de volta ao mundo físico.
Era uma amiga, desesperada por que o namorado havia pedido um tempo. Ela chorava e dizia que nada mais tinha sentido, que ela não era nada sem ele...efim, todos aqueles lamentos que ao meu ver, apesar da dor que ela sentia, não tinham fundamento.
Fiz o possível para consolá-la e fazer com que ela se acalmasse. Depois de quase 40 minutos de conversa, desliguei o telefone, pousei a cabeça no travesseiro e comecei a pensar.
O que faz uma pessoa condicionar sua vida a outra assim, a ponto de nada mais ter sentido quando ela se afasta? Tudo bem, realmente é difícil quando você ama e perde a pessoa, mas, e o resto ? E os projetos profissionais, a vontade de conhecer lugares e pessoas, a vontade de crescer ? Será que o amor anula tudo isso ? Bom, se for assim, eu não quero amar.
Na verdade, o maior problema é que alguém nos fez acreditar que cada um de nós é a metade de uma laranja, e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade.
Mas isso não é verdade. Já nascemos inteiros e ninguém em nossa vida merece carregar nas costas a responsabilidade de completar o que nos falta: a gente cresce através da gente mesmo. Se tivermos uma boa companhia, só é mais agradável.
Fizeram a gente acreditar numa fórmula chamada “dois em um”, duas pessoas pensando igual, agindo igual...mas isso tem nome: anulação. Só sendo indivíduos com personalidade própria é que poderemos ter uma relação saudável.
Fizeram a gente acreditar que a única fórmula para ser feliz é encontrar outra pessoa que nos “complete”, mas ninguém falou que essas fórmulas nem sempre dão certo, frustram as pessoas, são alienantes...
Existem muitas outras alternativas...mas isso ninguém vai nos contar. Teremos que descobrir sozinhos.
“ E aí, quando você estiver muito apaixonado por você mesmo, vai poder ser muito feliz e se apaixonar por alguém.” (John Lennon)
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
A história do maluco
- Em homenagem ao meu pai, que gostou muito do texto e disse que, ao lê-lo, lembrou-se do eterno Raul Seixas.
Bartolomeu ou Boquina, ou “Filósofo”, como queira, era um espertalhão, mas não furtava, não batia carteira, não vendia falsos bilhetes premiados, não enganava velhinhos. Sua especialidade era ganhar o pão de cada dia dos espertos sem trabalhar, na conversa. Tinha uma alma de criança. Era de um bom humor invejável, um palhaço ambulante. Fazia piada de tudo, até dele mesmo. Dava risada da sua estupidez.
O jeito de se vestir,andar, viver, era diferente. Era um miserável, não tinha riquezas, jóias, carros, celulares, nem casa para morar, mas tinha o que muitos procuravam: uma mente livre. Bartolomeu fez junto com seu companheiro de estrada, Barnabé, quando ainda eram adolescentes, uma música chamada “ Louco genial” . Fizeram dela um tema de suas vidas. Cantavam-na na saída dos teatros, escolas, reuniões de executivos, enfim, em todos os lugares, em especial quando os “normais” da sociedade olhavam para eles com desprezo.
Você acorda, levanta, reclama e faz tudo igual
Luta para ser aceito, notado e sair no jornal
Corre atrás do vento como uma máquina imortal
Morre sem curtir a vida e jura ser uma pessoa normal
Olha para mim e me diz com ironia social
Eis aí um maluco, um sujeito anormal
Sim, mas não vivo como você em liberdade condicional
Sou o que sou, uma mente livre, um louco genial.
Bartolomeu era um mestre em maluquices. Amava os adolescentes, chamava-os de “grandes cérebros”. Mas cutucava os mauricinhos que gostavam de torrar a grana dos pais sem nenhum sentimento de culpa, os fissurados em produtos de marca. Tirava o sarro neles cantando a sua música. Era um maltrapilho livre, não tinha nada, mas tinha tudo.
Uma coisa era incontestável: de baixa autoestima jamais morreria. Apesar de sua imensa pobreza, tinha doses elevadas de alegria. Era um herói diante da miséria social existentes nas imensas cidades. Foi esmagado pela vida, mas sobreviveu.
Gostava de perturbar os intelectuais. Achava que a maioria deles era pessimista, fechada, melancólica. Para ele, os intelectuais deveriam ser como Einstein, meio músico, meio palhaço, meio “louco”.
Bartolomeu ou Boquina, ou “Filósofo”, como queira, era um espertalhão, mas não furtava, não batia carteira, não vendia falsos bilhetes premiados, não enganava velhinhos. Sua especialidade era ganhar o pão de cada dia dos espertos sem trabalhar, na conversa. Tinha uma alma de criança. Era de um bom humor invejável, um palhaço ambulante. Fazia piada de tudo, até dele mesmo. Dava risada da sua estupidez.
O jeito de se vestir,andar, viver, era diferente. Era um miserável, não tinha riquezas, jóias, carros, celulares, nem casa para morar, mas tinha o que muitos procuravam: uma mente livre. Bartolomeu fez junto com seu companheiro de estrada, Barnabé, quando ainda eram adolescentes, uma música chamada “ Louco genial” . Fizeram dela um tema de suas vidas. Cantavam-na na saída dos teatros, escolas, reuniões de executivos, enfim, em todos os lugares, em especial quando os “normais” da sociedade olhavam para eles com desprezo.
Você acorda, levanta, reclama e faz tudo igual
Luta para ser aceito, notado e sair no jornal
Corre atrás do vento como uma máquina imortal
Morre sem curtir a vida e jura ser uma pessoa normal
Olha para mim e me diz com ironia social
Eis aí um maluco, um sujeito anormal
Sim, mas não vivo como você em liberdade condicional
Sou o que sou, uma mente livre, um louco genial.
Bartolomeu era um mestre em maluquices. Amava os adolescentes, chamava-os de “grandes cérebros”. Mas cutucava os mauricinhos que gostavam de torrar a grana dos pais sem nenhum sentimento de culpa, os fissurados em produtos de marca. Tirava o sarro neles cantando a sua música. Era um maltrapilho livre, não tinha nada, mas tinha tudo.
Uma coisa era incontestável: de baixa autoestima jamais morreria. Apesar de sua imensa pobreza, tinha doses elevadas de alegria. Era um herói diante da miséria social existentes nas imensas cidades. Foi esmagado pela vida, mas sobreviveu.
Gostava de perturbar os intelectuais. Achava que a maioria deles era pessimista, fechada, melancólica. Para ele, os intelectuais deveriam ser como Einstein, meio músico, meio palhaço, meio “louco”.
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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
Histórias de Rodoviária – Parte I
Segunda-feira, 8h30min. Depois de um final de semana de festa e família, eu me encontrava em uma rodoviária, comprando a passagem pra voltar à rotina. Normal. Apesar de eu não ir para casa todos os finais de semana, eu repito essa cena com uma certa frequência. Mas aquele dia reservava algo peculiar.
Nunca gostei de esperar e confesso que o intervalo de uma hora que eu tenho que ficar na rodoviária para pegar o ônibus que me leva ao meu destino tem testado a minha paciência. Isso só acontece porque minha família mora (e eu também morava até pouco tempo) em uma cidade bonita, mas pequena, que não tem se quer uma linha de ônibus direta à Passo Fundo.
Ossos do ofício.Paciência.Um dia terei um carro.
A única coisa boa de se perder uma hora na rodoviária é a possibilidade de observar as pessoas que passam por ali. Gente chegando, gente indo.Pais abraçando filhos que estão de partida. Netos levando avós para comprar a passagem. Aquele beijo longo dos namorados que se despedem e já anseiam pelo próximo encontro...será que essas pessoas se dão conta que talvez seja a última vez que se veem ? Não sei. Enfim, abstrai.
As vezes, estando nesse ambiente, eu me sinto em outra dimensão. Como se eu fosse invisível...como se eu não fizesse parte daquele todo e pudesse apenas observar, sem interferir.
Nesse dia, em especial, fui acordada do meu “sonho” por uma canção brega. Daquelas que o meu avô ouvia quando era jovem. Um senhor, com ares de indigente, passava por aí e cantava. Em alto e bom som, para quem quisesse ouvir (e quem não quisesse também). Quando olhei para ele, me lembrei, de súbito, do “Vendedor de Sonhos”, do Augusto Cury (em dois volumes, um dos melhores livros que eu já li).
Com a mão em uma orelha, ele tinha a pose de um cantor. E cantava bem, no ritmo e tudo mais. Cantando, ele percorreu algumas vezes toda a extensão da rodoviária. De repente ele parou, como se tivesse visto, ou quem sabe sentido algo. Abaixou os olhos para seu relógio de pulso e depois, olhando fixamente para o céu disse : - São 8h42min e ainda não aconteceu nada! Como? Como isso é possível? Estou no aguardo e lhe peço ansiosamente que venha!
Dito isso, voltou a cantar.
Havia algo de estranho nos olhos dele. Algo como uma súplica. E ele falou com tanta certeza de que estava sendo ouvido, que por um momento eu senti que todos olhavam para ele, não mais como um indigente beirando a loucura, mas como alguém que sabe de alguma coisa importante.
Todos esperavam por mais palavras. Mas ele não fez isso. Seguiu cantando apenas.
Confesso que me impressionei com a cena. Parecia mesmo que ele conversava com alguém. As pessoas que estavam por perto, timidamente e tentando disfarçar, olhavam para o céu para ver se tinha alguém ou alguma coisa por lá. Mas não tinha nada visível à nós.Apenas ele podia ver.
Senti uma vontade gigantesca de conversar com o senhor cantor. Coisas de Jornalista, eu acho. Queria saber, mesmo que fosse loucura dele, com quem ele falava, quem ele era.
Como se lesse meu pensamento, ele parou do meu lado. Parou de cantar e me olhou. Pensei em arriscar algumas palavras, mas o ônibus chegou.
E pela primeira vez uma hora de espera na rodoviária passou rápido demais. E eu deixei para trás uma conversa que renderia muitas histórias, tenho certeza.
Nunca gostei de esperar e confesso que o intervalo de uma hora que eu tenho que ficar na rodoviária para pegar o ônibus que me leva ao meu destino tem testado a minha paciência. Isso só acontece porque minha família mora (e eu também morava até pouco tempo) em uma cidade bonita, mas pequena, que não tem se quer uma linha de ônibus direta à Passo Fundo.
Ossos do ofício.Paciência.Um dia terei um carro.
A única coisa boa de se perder uma hora na rodoviária é a possibilidade de observar as pessoas que passam por ali. Gente chegando, gente indo.Pais abraçando filhos que estão de partida. Netos levando avós para comprar a passagem. Aquele beijo longo dos namorados que se despedem e já anseiam pelo próximo encontro...será que essas pessoas se dão conta que talvez seja a última vez que se veem ? Não sei. Enfim, abstrai.
As vezes, estando nesse ambiente, eu me sinto em outra dimensão. Como se eu fosse invisível...como se eu não fizesse parte daquele todo e pudesse apenas observar, sem interferir.
Nesse dia, em especial, fui acordada do meu “sonho” por uma canção brega. Daquelas que o meu avô ouvia quando era jovem. Um senhor, com ares de indigente, passava por aí e cantava. Em alto e bom som, para quem quisesse ouvir (e quem não quisesse também). Quando olhei para ele, me lembrei, de súbito, do “Vendedor de Sonhos”, do Augusto Cury (em dois volumes, um dos melhores livros que eu já li).
Com a mão em uma orelha, ele tinha a pose de um cantor. E cantava bem, no ritmo e tudo mais. Cantando, ele percorreu algumas vezes toda a extensão da rodoviária. De repente ele parou, como se tivesse visto, ou quem sabe sentido algo. Abaixou os olhos para seu relógio de pulso e depois, olhando fixamente para o céu disse : - São 8h42min e ainda não aconteceu nada! Como? Como isso é possível? Estou no aguardo e lhe peço ansiosamente que venha!
Dito isso, voltou a cantar.
Havia algo de estranho nos olhos dele. Algo como uma súplica. E ele falou com tanta certeza de que estava sendo ouvido, que por um momento eu senti que todos olhavam para ele, não mais como um indigente beirando a loucura, mas como alguém que sabe de alguma coisa importante.
Todos esperavam por mais palavras. Mas ele não fez isso. Seguiu cantando apenas.
Confesso que me impressionei com a cena. Parecia mesmo que ele conversava com alguém. As pessoas que estavam por perto, timidamente e tentando disfarçar, olhavam para o céu para ver se tinha alguém ou alguma coisa por lá. Mas não tinha nada visível à nós.Apenas ele podia ver.
Senti uma vontade gigantesca de conversar com o senhor cantor. Coisas de Jornalista, eu acho. Queria saber, mesmo que fosse loucura dele, com quem ele falava, quem ele era.
Como se lesse meu pensamento, ele parou do meu lado. Parou de cantar e me olhou. Pensei em arriscar algumas palavras, mas o ônibus chegou.
E pela primeira vez uma hora de espera na rodoviária passou rápido demais. E eu deixei para trás uma conversa que renderia muitas histórias, tenho certeza.
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
Que assim seja

E chega um momento que a gente percebe que o que realmente importa é a fé que depositamos em nós mesmos.
Um momento que cansasamos de sofrer por pessoas que não merecem nosso sofrimento.
E mesmo quando todas as canções que embalam nossos pensamentos são tristes, é hora de cuidar, de pensar, de tornar prioridade...mas não os outros, nós mesmos.
Que se marque aqui um recomeço.
O meu recomeço.
"Que minha solidão me sirva de companhia.
que eu tenha a coragem de me enfrentar.
que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo."
(Clarice Lispector)
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Um olhar sobre a indiferença

Frieza, insensibilidade, apatia, desprezo. Essa é a definição da palavra indiferença no dicionário. Mais que isso. Esses são os sentimentos que regem grande parte da nossa sociedade, infelizmente.
Diariamente nos deparamos com campanhas publicitárias, reportagens e até políticas públicas que visam proporcionar conhecimento e concientizar a população sobre as diferenças, especialmente nos casos de deficientes físicos. São ótimas iniciativas, contudo, existe algo que está passando despercebido.
De que adianta falar sobre as diferenças se a grande maioria das pessoas é indiferente a isso? De que maneira as pessoas vão entender que cada ser é único, se criam uma bolha em torno de si, como se vivessem num mundo a parte ?
Talvez o grande desencadeador dos maiores problemas sociais seja exatamente esse : a indiferença. As pessoas estão cada vez mais alienadas, a ponto de não mais se sensibilizarem com crianças que dormem nas ruas, envoltoas apenas em uma folha de jornal. A miséria, a violência, a falta de acesso à educação...todos esses problemas não causam nenhuma reação à maioria das pessoas, como se simplismente não existissem.
É como se fosse da natureza humana essa desigualdade de condições e esse individualismo.. É estranho, mas é exatamente assim. O ser humano moderno vive isolado em uma bolha e tenta debater a aceitação das diferenças, como se pra isso não fosse necessário qualquer tipo de contato.
Não digo com isso que é desnecessário falar sobre as diferenças. Pelo contrário. Temos que entender que, ricos ou pobres, brancos ou negros, deficientes ou não, quando morremos nossos corpos vão todos para o mesmo lugar. E afinal, que graça teria se fossemos todos iguais ?
No entando, para que as pessoas entendam as diferenças, elas precisam deixar de ser indiferentes à isso. Precisam entender que a vida é um jogo de reflexos e que mais cedo ou mais tarde seremos responsabilizados por nossas açõe, ou não-ações.
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